Finalmente estavam em casa. Depois de uma longa semana numa longa missão de espionagem, voltaram ao lugar que podiam chamar de lar. Não era exatamente uma casa, era um quarto que continha tudo o que eles precisavam. Queriam ver um filme? Era disponibilizado. Queriam jogar algum jogo? Ele era adquirido. Queriam ler um livro? Ele logo aparecia na estante. Queriam dar uma volta? O jardim das instalações era aberto. Tudo era providenciado para o conforto deles, desde que servissem em missões especiais para o governo e que não fizessem uma pergunta sobre o assunto.
Violet foi a primeira a adentrar o quarto. Ele era grande, quadrado, não tinham janelas, e cabiam as coisas de todos nele. Olhou para os lados, avistando os móveis que lá havia: uma estante com eletrônicos, um sofá bege e confortável, uma cozinha clara, completa com utensílios. Avistou sua cama, simples, com cobertor azul, que mais parecia uma cama de casal agora, depois de ter dormido tantos dias num colchão velho e duro, e às vezes no chão. Correu em sua direção, deu um pulo e caiu deitada sobre as cobertas, bagunçando-as. Fechou os olhos e espreguiçou-se lentamente, até que por fim pôs as mãos atrás da cabeça e relaxou. Nem esperou para trocar de roupa; o traje azul escuro que vestia a incomodava um pouco quando deitada, definitivamente não era uma roupa de dormir, e com certeza a cama não era um lugar adequado para colocar as botas que estava usando, mas ela nem ligou para isso. Estava tão cansada que foi direto para a cama. Os acontecimentos da missão que acabaram de completar passavam diante de seus olhos, embora Violet tentasse esquecê-los. Agora só queria descansar. Foi interrompida por uma voz feminina que lhe chamava:
-Violet, você está bem?
Abriu seus olhos lentamente, ofuscando-se por uns momentos com a lâmpada fluorescente que iluminava o quarto, e virou-se para o lado para ver quem a chamara. Avistou sua melhor, e única, amiga, Jennifer, ou S2, como era chamada durante as missões. Jennifer era poucos anos mais velha que Violet, e era também mais alta; sua pele era morena, e tinha longos e lisos cabelos loiros que lhe passavam os ombros; estava vestida com um traje vermelho, bem justo, igual ao de Violet, a não ser pelo tamanho e pela cor; como Violet, seu braço estava descoberto, e usava botas iguais. Jennifer estava a observando de perto, com seus grandes e hipnotizantes olhos azuis-turquesas. Jennifer era como a irmã mais velha de Violet; ela a aconselhava e a ajudava quando precisasse. Juntas, passaram por muitas situações difíceis. Diante do silêncio que Violet estava criando, ela repetiu:
-Violet, você está bem? Nem chegamos e já foi se deitar?
-Ah, é que estou muito cansada. Essa última missão foi muito cansativa.
-Foi, mas nós já passamos por coisas piores. Tem certeza que não quer comer alguma coisa?
Violet acabara de se lembrar: não tinha comido nada há horas. De repente sentiu uma imensa vontade de devorar algo para saciar sua fome. Sua barriga, como por vida própria, deu um ronco audível, ao que Jennifer comentou:
-Aí está minha resposta. Vamos comer! – levantou-se do chão, ao lado da cama de Violet, e estendeu-lhe a mão. Violet levantou-se também, e juntas se dirigiram à área da cozinha, de onde podiam avistar dois corpos, um em pé e o outro sentado numa cadeira à mesa.
-Gente, quem quer panqueca? – disse Edge, ou S3, que estava pegando os instrumentos para começar a cozinhar. Edge era negro, bem alto e forte, o que lhe dava o aspecto de ser violento, quando na verdade era muito simpático; seu hobbie era cozinhar, e sempre que podia experimentava receitas novas e tentava aperfeiçoá-las; estava vestindo um traje igual ao de Violet e de Jennifer, mas ele era uma versão masculina, mais larga, e sua cor era cinza; suas feições eram bonitas, ele tinha lindos olhos verdes, não tinha cabelo, e tinha lábios bem carnudos. Pegou todos os utensílios necessários e abriu a geladeira para pegar os ingredientes.
-É lógico que eu quero! – respondeu Jennifer, de imediato.
-Eu também vou querer algumas, estou faminta! – respondeu Violet, que em seguida sentou-se à mesa, junto a Axel.
Axel, ou S1, era do tipo calado. Não gostava muito de falar, gostava de agir, mas gostava principalmente de aparelhos eletrônicos; era mais baixo que Edge, porém não deixava de ser alto; tinha cabelos curtos e ruivos, e transmitia seriedade e serenidade com seus olhos, que eram como os de Violet, só que ao contrário: seu olho esquerdo era azul e o direito era verde; usava um traje idêntico ao de Edge, mas com um tom bem escuro de vinho. Axel era como um irmão mais velho para todos, ele arriscava sua vida para protegê-los. De fato, os quatro cuidavam uns dos outros como uma família. Todos davam o máximo para proteger as vidas dos amigos, arriscando-se ao extremo.
Edge acabou de pegar todos os ingredientes, virou-se para Axel e falou:
-E você, cara? Quer panqueca?
Axel levantou-se de sua cadeira e respondeu à pergunta. Sua voz era suave, serena:
-Por favor. Enquanto isso vou arrumar minhas coisas e já volto.
-É pra já! – disse Edge, que já começava a ligar o forno. Axel foi à área dos quartos enquanto os outros três ficaram conversando na cozinha. Quando voltou, as panquecas já estavam prontas, e os quatro jantaram juntos. Ao final do jantar todos sentaram-se no sofá em frente da TV para conversar.
-Então, - comentou Jennifer – o que vocês acham que continham nos arquivos que pegamos nos computadores da Star Corp.?
-Não sei, mas deviam ser coisas muito importantes para terem sido protegidas com aquele sistema de segurança. – respondeu Edge.
-O firewall do sistemas deles era... incrível. – disse Axel, lembrando perfeitamente o quão bem construído tinha sido o firewall da Star Corp. – As linhas de códigos eram muito bem feitas, realmente foi muito difícil encontrar uma brecha.
Violet, que até agora nada falara, comentou:
-E vocês viram quantos guardas estavam dentro do cofre de segurança guardando os terminais?
-É mesmo, e acabamos com todos eles, não é Violet? – perguntou Jennifer, levantando a mão direita para cumprimentar Violet, que retribuiu o aceno e respondeu:
-É isso aí!
Após isso, um silêncio mortal reinou sobre o cômodo por alguns segundos. Os quatro sabiam que estavam pensando a mesma coisa, porém ninguém quis comentar sobre o assunto. A primeira que cortou o silêncio foi Violet:
-Gente, quando é que isso vai acabar?
-Fazemos isso desde que lembramos, certo? – perguntou-se Jennifer. – Desde a infância fomos treinados para isso, mas não quero mais isso!
-Realmente, embora sejamos bem tratados aqui, não quero continuar com essa vida. Não gosto de matar pessoas. – citou Axel, o qual foi seguido por Edge:
-Não quero mais essa vida! Quero viajar pelo mundo e aprender estilos culinários diferentes!
-Que droga. Nós pelo menos recebemos alguma opção para nossas vidas? Não acho que... – Axel foi interrompido pelo barulho da porta de entrada, que acabara de ser aberta violentamente. Todos olharam para a porta e, treinados do jeito que foram, imediatamente prepararam-se para o pior, colocando-se em posição defensiva. Viram que era o Doutor Rogério, um dos cientistas da seção de pesquisas de armamentos, que entrara tão espontaneamente. Era loiro, bem magro, e usava óculos redondos e finos; vestia uma calça jeans e uma camisa cinza-claro por baixo do jaleco branco, que era uniforme padrão entre os cientistas. Rogério era o cientista favorito dos quatro, sempre se davam muito bem. Estava pálido e ofegante, aparentemente tinha corrido por certo tempo até abrir a porta e parar. Estava segurando vários apetrechos e armas, provavelmente vindos do laboratório de pesquisas. Olhou para os lados, procurando visualmente pelo grupo S, até que os avistou na sala. Ao identificar a figura de Roger, os quatro relaxaram um pouco, e Axel foi o primeiro a falar:
-Dr. Rogério, o que est...
-Não há muito tempo para explicações! – Rogério o interrompeu. Sigam-me que eu os explico no caminho!
Todos estavam desorientados e confusos. “O que teria acontecido para que Roger ficasse tão atônito? E para onde ele quer nos levar?” pensava Violet.
-Opa, espere aí, - exclamou Edge – do que você está falando? Para onde vamos?
-Por favor, confiem em mim! Suas vidas correm grande perigo!
Os quatro ficaram chocados diante da resposta. “Quem poderia querer nos matar?” pensou Violet. “Será que houve uma pequena falha na missão anterior e informações nossas vazaram? E também, nunca saímos do quarto sem autorização. Por que poderíamos sair agora?” Pensamentos semelhantes passavam pelas cabeças dos outros três. Todos sabiam que podiam confiar em Rogério, os equipamentos que fazia sempre os ajudavam, e muito, nas missões. Eles se entreolharam, em dúvida, até que Axel tomou a decisão final:
-Bem, confiamos nele, não é? Vamos segui-lo então.
-Ótimo. – disse Rogério ao ouvir a decisão do grupo – Mas antes vistam isso, vai ser útil.
Rogério deu-lhes rapidamente os equipamentos que levava, que foram vestidos rapidamente. Todos pegaram luvas especiais e cintos de utilidades com pequenos bolsos com equipamentos menores dentro. Junto aos cintos colocaram uma pistola de 9mm cada um, com exceção de Jennifer, que pegou uma espingarda calibre 12 de cano serrado e amarrou-a no corpo com uma fita, deixando-a nas costas, onde poderia facilmente alcançá-la. Depois que todos estavam equipados, Dr. Rogério falou:
-Agora me acompanhem. Contarei tudo no caminho. – e se dirigiu à entrada. Os outros quatro hesitaram por um instante, mas por fim saíram do quarto.
Estavam agora no extenso corredor, sem janelas, com iluminação esparsa, completamente revestido por aço, que daria nos extensos corredores subterrâneos do complexo. Sempre passavam por ali quando embarcavam em uma missão, afinal era a única saída do quarto. Andaram até a metade do corredor, onde pararam em frente a uma fechadura quase imperceptível que havia na parede. Rogério pegou de seu boldo uma pequena chave e a girou dentro da fechadura, abrindo uma pequena passagem. “Nossa, tantas vezes que passamos por aqui e nunca percebemos esta passagem, nem ao menos esta fechadura.” pensou Violet.
Entraram pela passagem e se depararam com outro corredor, desta vez muito menor, úmido e mal-cheiroso.
-Aqui é uma entrada para o depósito de lixo do complexo. – explicou Rogério, sua voz ecoando pelas paredes – Ao final deste corredor estaremos mais próximos de sair daqui.
-Vamos sair daqui? – perguntou Jennifer – Mas por quê?
-S2, eu lhes disse que alguém estava querendo matá-los, não é? – respondeu Rogério – Pois são os diretores deste complexo que deram a ordem!
Violet não acreditava no que ouvia. Os quatro não acreditavam. Por que as pessoas com quem trabalharam a vida toda iriam querer matá-los?
-Rogério, – começou Axel – explique-se melhor, por favor.
-OK, vou explicar-me. Vocês não são normais, vocês são especiais, mas não nasceram especiais. Vocês são fruto de um projeto do governo, que pretendia criar soldados perfeitos, que pudessem realizar qualquer missão, por mais difícil que fosse. Seus braços, tornozelos e joelhos, vocês sabem que eles são mecânicos, porém lhes foi contado que isso aconteceu devido a um acidente, o que não é verdade. O governo fez experiências com vocês, deu-lhes habilidades especiais que nenhum outro tem.
Violet agora estava ainda mais confusa. “Então o governo não nos ajudou a nos recuperar de um acidente? Foram eles que fizeram isto conosco de propósito?” pensava ela.
-Vocês – continuou Rogério – foram treinados para serem soldados perfeitos. Receberam tanto treinamento psicológico quanto físico, o que os transformou em soldados muito bem-treinados à disposição do governo. Vocês foram enganados por toda a vida, foram usados como armas pelo governo todo o tempo!
-Cale a boca! – gritou Jennifer, e todos pararam para observá-la. Lágrimas escorriam por seu rosto – Você está mentindo! Eu não acredito nisso! Tudo o que acreditei na vida... não é mais que uma mentira? – ela ajoelhou-se ao chão, choramingando, e Violet foi consolá-la, quase chorando também. Observou Edge e Axel: Edge parecia muito abalado, com uma expressão incrédula em sua face; Axel parecia sério como sempre, porém Violet notou que ele também ficara sentido.
-Rogério – perguntou Axel – se tudo deu certo até agora, por que eles querem nos matar agora? Não seria mais fácil nos matar antes?
-Sim, seria – respondeu Rogério – mas antes não se tinham noções de suas capacidades. Vocês foram como um teste, que no final foi mal-sucedido.
-O que quer dizer com “mal-sucedido”? – perguntou Edge, encarando Rogério.
-Mal-sucedido significa que vocês não atenderam às expectativas. O objetivo de tudo isso era criar soldados perfeitos, já disse, e vocês tem algo que os torna imperfeitos: emoções.
Os quatro ficaram em choque. Então era essa a razão disso tudo? Emoções?
-Mesmo sendo treinados para reprimi-las, - continuou Rogério – vocês não conseguem livrarem-se delas. São elas que as tornam humanos. E foi essa a razão para eles determinarem que vocês precisem ser eliminados.
Violet não mais distinguia o que acontecia à sua volta. Estava tão focada em interpretar as chocantes notícias que acabara de receber que não conseguia mover-se. Seria toda sua vida uma mentira, como Jennifer mesmo disse? Tudo o que ela fez, tudo em que acreditou, todos que ferira e matara, tudo isso fazia sentido nenhum? O que fizera por conta própria até agora, nada? Seus olhos ficaram úmidos de lágrimas, porém não conseguiu chorar. Foi treinada para não chorar, foi treinada para reprimir emoções fortes. Mas foram as pessoas que a treinaram que mentiram para ela toda a sua vida! Violet não sabia em que acreditar. Fechou os olhos e respirou fundo, segurando as lágrimas que tanto lutavam para sair. “Tenho que me acalmar, reorganizar os pensamentos” pensou ela. Por poucos instantes ficou imóvel, refletindo sobre tudo o que acontecera nos últimos minutos, até que veio-lhe um pensamento que a fez levantar e apontar seu braço direito para Rogério. A lâmina que guardava dentro de seu braço semimecânico saiu pela parte superior de seu pulso e quase encostou no pescoço do doutor, surpreendendo a todos com a inesperada reação.
-Você – ela disse, com fúria no olhar e na voz – Você mentiu para nós este tempo todo!
Ele a olhou, um pouco indeciso sobre o que dizer, e finalmente falou, quase que gaguejando:
-S4... – retesou-se por um instante e continuou – quero dizer, Violet, é sim, eu menti para vocês, eu sabia de tudo desde o começo. Eu achei que talvez vocês não precisassem saber a verdade, eu realmente achei, assim tudo seria mais fácil, pra vocês e para mim. Mas eu não sabia que iriam querer matá-los, eu juro! Eu fui totalmente contra! Vocês não são armas que são usadas e depois descartadas, vocês são seres humanos! Mas eles não concordaram com minha opinião, e eu perdi meu emprego por isso. É por isso que eu estou os ajudando! Se eles me encontrarem... – Rogério parou por um momento, sentindo um pequeno calafrio na espinha – enfim, vocês têm que confiar em mim agora!
Violet não sabia em que pensar, estava com muita raiva para raciocinar direito. Foi quando Axel segurou-lhe o braço e falou:
-Violet, não temos muita opção agora. Acho que é melhor...
-Mas ele... ele mentiu pra nós! – ela o interrompeu.
-Mas agora nos contou a verdade! – retrucou Axel – Além do que, qual opção nós temos agora?
Violet sabia que não tinham mais nenhuma opção além de confiar em Rogério. Mas ainda assim era muito difícil confiar em alguém depois que se descobre que este alguém mentiu para você por toda sua vida. Ficaram parados por um momento, e depois a lâmina de Violet retrocedeu e voltou para dentro de seu braço. O doutor respirou aliviado, tirando o excesso de suor do rosto com o jaleco.
-Muito bem, temos que ser rápidos. – falou o doutor – Eles já podem estar nos perseguindo.
Violet ajudou Jennifer a levantar-se, ainda meio chorosa, e puseram-se a andar novamente. Todos os cinco sabiam que suas vidas estavam pra mudar drasticamente.
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