segunda-feira, 7 de março de 2011

Capítulo 3 – Preparações e esclarecimentos

            Estavam agora andando depósito adentro, Ray e a Vigilante. Ela guiando-o pela frente. Subitamente a Vigilante parou por um instante, como se lembrasse de algo. Virou-se para Ray e falou:
            -Ah, você mora sozinho?
            Ray, surpreendido com a estranha pergunta, respondeu:
            -Sim, moro. Por quê?
            -Me passe seu endereço, vamos passar lá para pegar suprimentos e etc.
            Ray não compreendeu a resposta imediatamente, então deixou para refletir mais tarde. Olho para trás, em direção ao pátio onde lutaram, e falou:
            -Ei, mas e quanto àqueles cadáveres, o que faremos?
            A Vigilante olhou para os corpos lá fora e respondeu:
            -Não são cadáveres. Todos estão vivos, somente desacordados.
            Ray não esperava por essa resposta vinda dela. Pensava que ela tivesse matado todos à sangue frio, mas ela somente os desacordou.
            -Mas... não seria mais fácil simplesmente matá-los?
            -Seria, mas não seria justo. Eles não merecem a morte. Prefiro vê-los atrás das grades. - se esticou da ponta dos pés até os dedos das mãos por uns instantes e continuou – Não que eu tenha coragem de matar alguém, mas só mato pessoas quando for necessário.
            “Então é assim que ela age” pensou Ray. “Por mim tudo bem, posso agir da mesma forma.”
            -OK, mas o que acontecerá a eles?
            Ela parou e observou Ray por alguns instantes, e depois respondeu:
            -Antes daquela nossa luta começar eu tinha contatado a Polícia Internacional. Já devem estar chegando para prender todos.
            Ray conhecia bem o suficiente e Polícia Internacional. A P.I., como era chamada, foi fundada logo após o início da ditadura, pela ONU, para agir como uma força policial avulsa ao governo. Ela agia como uma polícia normal, porém não era influenciada em nada pelo governo brasileiro, então estava significativamente livre de corrupção. Qualquer violação dos Direitos Humanos ou qualquer negócio ilegal que descobriam, ela agia com autorização plena da ONU para fazer o que fosse necessário para combater o crime. Se agentes do governo forem pegos praticando atividades ilegais, eram impostas represálias ao governo, tanto financeiramente quanto politicamente. Normalmente era muito difícil obter evidências suficientes para condenar os culpados, mas naquele caso a Vigilante tinha os entregado de mão cheia à P.I.: lá estavam milhares de caixotes com muitas evidências para serem tomadas como provas, o que certamente os deixaria na cadeia por um bom tempo.
            Agora Ray encontrou sentido em ir à sua casa. Eles tinham de sair dali, o quanto antes, e ir a algum lugar seguro.
            -Ah, OK. – respondeu Ray. – Tome meu endereço. – pegou papel e caneta, escreveu o endereço e deu à Vigilante, que o leu e mexeu de leve a cabeça para frente, como se afirmando conhecer o endereço. Guardou o papel num dos pequenos bolsos em seu cinto e falou:
            -OK, aqui vai o plano: você ainda não está sendo procurado, então você vai normalmente até lá. Eu sei onde fica, então vou pelo meu próprio caminho para que ninguém me veja. Te encontro lá, certo?
            -Certo, estarei lá. –dito isso, a Vigilante acenou com a cabeça, se virou e correu em direção à escada que levava ao nível superior. À metade do caminho, parou e se virou em direção a Ray. Observando-o fixamente, apontou dois de seus dedos para seus próprios olhos e depois os apontou para os olhos de Ray, e depois desapareceu escada acima. Ray entendera o recado. “Ela está de olho em mim.”
            Ray olhou em volta. Estava sozinho agora naquele grande depósito. A chuva caía mais fraca agora. Muitas dúvidas e incertezas pipocavam por sua mente, mas não tinha tempo de pensar nelas agora. Tinha que sair dali e ir para casa. Recordou-se do caminho e pôs-se a andar em direção à saída. Passou por todos os seus ex-colegas, agora desacordados; passou pelo caminhão com a carga, com pouca carga a ser descarregada; passou por entre as paredes de tijolo vermelho que davam à entrada de carga e descarga do depósito, e finalmente estava na rua.
            A rua estava deserta, como deveria estar às duas ou três da manhã com chuva. Não havia sinal algum de movimento, a não ser pela água da chuva correndo pela sarjeta. Passou pela mente de Ray que dentro de poucos minutos aquele lugar estaria infestado e policiais, o que lhe deu um leve calafrio na espinha. Ajeitou seu casaco e pôs-se a andar para casa. Pelos seus cálculos chegaria em casa dentro de vinte minutos. Imaginava se a Vigilante chegaria lá antes. Pensava em todas as perguntas não respondidas, e se elas seriam respondidas assim que chegasse em casa.
            Quando virou a esquina, encontrou outro homem vindo do lado oposto. Continuaram se aproximando, e à medida que se aproximavam, aumentava a tensão no coração de Ray. “Será ele um policial? Ou um assaltante? Não importa, se ele vier para cima estarei pronto para cortá-lo em dois” pensava Ray enquanto se aproximavam cada vez mais. Chegaram o mais perto possível um do outro, olharam um nos olhos do outro, e ambos seguiram seus caminhos sem pestanejar. “São Paulo é uma cidade perigosa à noite, ninguém gostaria de arranjar problemas” pensou Ray.
            Ray chegou em seu destino alguns minutos depois. Sua casa, localizada numa rua movimentada no bairro da Lapa, era relativamente simples. Tinha dois andares, pintura bege, uma pequena sacada que dava para a rua. Não tinha garagem, a porta dava diretamente na rua. Pegou as chaves no bolso de seu casaco e colocou-a na fechadura, girando-a e abrindo a porta. Entrou em sua sala, agora escura e poucamente iluminada pela luz do luar. Não havia sinal da Vigilante. Se virou para deixar seu casaco molhado no cabideiro ao lado da porta, aproveitando para trancá-la e acender a luz. Virou-se em direção a cozinha, e foi surpreendido por um vulto azulado que veio rapidamente em sua direção, segurando-lhe pelo ombro e apontando-lhe uma lâmina prateada que atravessava a parte superior de uma luva preta. A Vigilante já havia chegado.
            -Por onde você...
            -Pela sacada – ela o interrompeu – Não devia deixar seu alarme tão exposto, qualquer um saberia que é só acabar com o sensor que a casa fica desprotegida. E quanto a você, - aproximou a lâmina de seu pescoço, chegando a encostá-la nele – você vai me dizer agora o que quer de mim, ou vou te matar agora mesmo!
            -Eu já te disse, eu quero te ajudar!
            -Não acredito em você! Você é um criminoso!
            -Você também descumpre a lei, não é?
            A Vigilante empurrou Ray até a parede, deixando-o acuado. Ray podia ver seus olhos claramente agora: o esquerdo era verde, o direito era azul, e ambos exalavam uma fúria incomensurável. Seus dentes rangiam de raiva, e ela parecia estar pronta para matá-lo sem piedade nenhuma, quando de repente a mão segurando-lhe o ombro afrouxou levemente e ela baixou a vista para baixo, respirando mais pausadamente. Por uns instantes permaneceu nessa posição, até que levantou a cabeça e falou, agora com um tom mais calmo:
            -Você somente quer fazer o que acha que é certo fazer, não é?
            Ray olhou diretamente nos olhos dela e falou calmamente:
            -É só isso. É tudo o que eu quero fazer.
            Neste instante ela o soltou, a lâmina que saía de dentro de sua luva fez um leve tinido metálico enquanto voltava para dentro, de onde não podia ser vista. Virou-se na direção oposta e andou poucos metros até a outra parede da casa. Tirou a máscara que usava, colocando-a em cima de um móvel, e virou-se para Ray novamente. Seu rosto, com tonalidade clara, era comprido e um pouco redondo, com curvas suaves, e o nariz era arrebitado, o que lhe dava uma ótima aparência com seus lisos cabelos violeta e seus estranhos olhos de cores diferentes. Apontou para Ray e falou:
            -Não confio em você, mas vou deixar você me ajudar. Mas saiba que estou de olho em você. Qualquer desvio de sua parte e...
            -OK, acho que não é necessário especificar. – interrompeu Ray – Somente espero ter uma chance de ganhar sua confiança. - Ray colocou as mãos na cintura e relaxou, respirando fundo por uns instantes. Depois alisou o cabelo molhado com a mão direita e falou:
            -Está bem, estamos aqui. O que fazemos agora?
            Ela apontou com a cabeça para seu banheiro e falou:
            -Antes vá se secar. Não é bom pegar um risco de resfriado. Deixei lá também uma camisa seca.
            Ele adentrou o banheiro e notou uma toalha molhada, e deduziu que tivesse sido utilizada pela Vigilante para se secar alguns momentos antes. Notou também a camisa que ela tinha lhe deixado. Começou a se secar pelos cabelos, alisando-os com uma toalha. A Vigilante, do lado de fora do banheiro, cruzou os braços e começou a andar pela sala, como que planejando suas futuras ações minuciosamente. Passou alguns instantes observando a pouca mobília na sala de Ray e ouvindo o suave barulho da chuva que caía lá fora, agora mais fraca, e depois começou a falar:
            -A P.I. vai prender seus colegas com todas aquelas mercadorias ilegais, então os policiais, mesmo que recebessem propina como normalmente acontece, não conseguiriam inocentá-los. Seus colegas notarão sua ausência, e muito provavelmente vão te denunciar para reduzir suas penas. Então imagino que a polícia virá te procurar aqui pela manhã. – fez uma pausa, observando Ray sair seco do banheiro, de camisa trocada e voltou a falar – Eles devem chegar aqui lá pelas cinco, – olhou no relógio de parede de Ray, bem simples, e continuou – e agora são três, então temos umas duas horas para aprontar tudo e sair daqui.
            -Mas para onde vamos, especificamente?
            -Não vou te falar, ainda não confio em você. – lançou um olhar cortante sobre Ray, e continuou – Além do mais, só é preciso saber que é um lugar seguro. Agora, vamos aos mantimentos. Vi que você tem uma maleta e uma mochila em seu armário lá em cima. Vamos pegá-las e colocar tudo o que pudermos nelas, começando por armas.
            Subiram e Ray pegou a maleta enquanto a Vigilante pegava a mochila. Pegaram todas as armas que Ray tinha em casa, um revólver calibre .38 carregado, uma submetralhadora MP5 de 9mm, munição para ambas, e também uma outra wakisashi, e colocaram tudo na maleta de Ray. Depois desceram para a cozinha, onde começaram a pegar todos os alimentos enlatados. Até agora não houve barulho nenhum por parte de ambos, quando Ray cortou o silêncio:
            -Err... você não acha que, já que vamos ser parceiros e tal, precisamos saber o nome e a história um do outro? – ele olhou para e Vigilante, que virou-se para olhá-lo também, e respondeu, com um tom de certa indiferença:
            -Bem, ainda temos tempo. Podemos conversar um pouco enquanto trabalhamos aqui. Você começa.
            -Bem, - Ray voltou a pegar algumas latas e continuou falando – meu nome é Raymond Silver, mas pode me chamar de Ray.
            A Vigilante acenou afirmativamente com a cabeça e falou:
            -Prazer em conhecê-lo Ray. Continue.
            -Certo. Nasci aqui em São Paulo, e fui criado pelos meus tios. Não ouvi muito falar de meus pais, somente sei que não os vi desde os quatro ou cinco anos de idade. Meu tio é conhecido como Big Al, um dos maiores traficantes que trabalham secretamente para o governo.
            Ela se virou para encará-lo e falou, surpresa:
            -É sério? Então você pode ser até mais útil do que eu tinha imaginado!
            -Não gosto deste seu tom de voz. Não espero ser útil somente nesse quesito. Quero lhe ajudar nas lutas também.
            -Está bem, está bem, continue.
            -Bem, estudei nas melhores escolas da cidade, porém não fiz nenhuma faculdade. Terminei o ensino médio e entrei de cabeça nos negócios da família. Fiz muita coisa errada, eu sei que fiz, mas sempre tive vontade de fazer a coisa certa, pelo menos uma vez, para compensar tudo o que fiz de errado. – Ray parou e olhou para a Vigilante, que agora estava sentada numa cadeira e estava observando-o atentamente – Agora eu tive essa chance, a melhor que eu já tive na minha vida, e quero aproveitá-la. E essa é minha história.
             As palavras de Ray foram seguidas por alguns instantes de silêncio por parte de ambos. A Vigilante parecia estar muito pensativa a respeito da história de Ray. Por fim, foi ele quem quebrou o silêncio:
            -Então, não vai se apresentar?
            Ela olhou para ele por um tempo, com um olhar distante, quando de repente voltou a si e falou:
            -Ah, acho que sim. Tenho três nomes: o primeiro, que você já conhece, é Vigilante. O segundo, que é o que eu menos gosto, é S4.
            -S4? – indagou Ray.
            -Sim, S4. E por último, o meu nome favorito, que eu considero o meu nome de fato. Meu nome é Violet. Muito prazer. – ela estendeu a mão para cumprimentar Ray, com certa frieza, que retribuiu o cumprimento, um pouco desconfiado.
            -Então seu nome é Violet?
            -É, me chamavam de Violet por causa do meu cabelo. Se não percebeu, ele é violeta. – levantou algumas mechas para Ray ver de perto.
            -Certo... e onde você nasceu?
            -Pra falar a verdade, eu não sei. – Ray ficou um pouco confuso com a resposta, e indagou:
            -Não sabe? Hum... mas e seus pais, onde estão?
            -Também não sei. Na verdade, nem sei se tenho pais. – Ray ficou ainda mais confuso com a história toda, e decidiu fazer uma última pergunta:
            -OK então, você pode me contar sua vida “no geral”? – Violet desviou o olhar rapidamente para o chão e falou:
            -Bem, acho que posso. Já aviso, é meio longa. Bem, lá vai... – ela inspirou o ar profundamente e segurou-o por alguns segundos antes de soltá-lo, e então começou a falar:
            -Tudo começou numa noite de inverno fria e chuvosa, como esta...

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