terça-feira, 1 de março de 2011

Capítulo 1 – Pensamentos numa noite de verão chuvosa

            Era uma noite fria e chuvosa. O tipo de noite que ninguém gostaria de enfrentar para poder trabalhar. Mas lá estava ele, Raymond Silver, ou simplesmente Ray, carregando caixas no meio da chuva. Esse era seu trabalho, carregar caixas no meio da noite. Ray sabia muito bem o que havia naquelas caixas, mas não ligava. Enquanto a ditadura continuasse e ele continuasse a ganhar dinheiro carregando caixas no meio da noite, tudo bem. Não que não se importasse com justiça, mas achava que aquele era o jeito mais fácil de sobreviver em seu país. O mais fácil, mas não o mais certo. Pelo menos desde a época em que nascera.
            Ray nasceu em 2020, naquela mesma cidade, São Paulo. A ditadura existia desde 2013, então Ray nunca presenciou um governo democrático em seu país. Seus pais, John Silver e Nora James Silver, eram jornalistas que faziam parte do Movimento em Prol da Democracia, grupo que tentou restaurar a república como forma de governo no país, sem sucesso. Seus líderes e membros foram presos e, a partir daí, não se sabe o que aconteceu a eles. Somente poucos membros conseguiram escapar e continuar o movimento, que teve sua força drasticamente reduzida. Ray tinha cinco anos quando isso ocorreu.
            Com os pais desaparecidos, Ray foi morar com os tios, no centro, onde aprendeu a viver por conta própria. Com o tio, aprendeu um dos negócios mais lucrativos da época: contrabando de drogas. Durante a ditadura era muito mais fácil contrabandear drogas, pois o governo dava incentivo em troca de um punhado de dinheiro para os cofres públicos. O negócio era sujo, mas fácil.
            Ray treinou artes marciais com os melhores mestres do Oriente. Encontrou seu estilo de luta preferido, o kenjutsu, que usa espadas. Ray começou a levar uma katana, espada japonesa longa, e uma wakisashi, espada curta, consigo, para proteção.
            Agora, em 2042, Ray estava com 22 anos, e tinha se tornado um homem forte e ágil, bem esperto para o padrão de sua época. Era alto e magro, porém muito elegante apesar de suas roupas de segunda mão. Tinha cabelos lisos e pretos, como um galã de cinema. Conseguiu um emprego no negócio do tio, e nele trabalhava desde então. Ray sabia que os negócios do tio eram ilegais, mas agindo do jeito que agia sabia que tudo ficava mais fácil, por mais que sentisse necessidade de agir corretamente. Ele queria fazer a coisa certa pelo menos uma vez na vida.
A chuva apertou, e Ray parou de lembrar de detalhes de sua vida e continuou a carregar as caixas. Olhou em volta, viu que todos tinham dado uma pausa para descanso, deixou sua caixa no depósito e juntou-se aos rapazes.
            -Ei caras – disse Mihael, um de seus companheiros, com quem trabalhava à tempos – vocês ouviram falar naquele justiceiro que anda por aí lutando contra o crime?
            -Claro que sim, idiota – disse Roberto, outro dos companheiros de trabalho de Ray – É impossível não ter ouvido falar nele, com todas as notícias nos jornais. O que tem ele?
            -Bem... – resmungou Mihael, pensativo – nosso trabalho é, tecnicamente, ilegal, não é?
            -Claro que é, e daí? – respondeu Roberto, num tom de voz alto.
            -Não acham que ele pode vir aqui e...
            Nesse instante, apareceu na chuva Richard, o chefe da divisão de Ray. Richard estava envolvido no negócio desde o início da ditadura e, por isso, sabia todos os truques e macetes. Era um dos capangas mais confiáveis do tio de Raymond. Era alto, forte, vestia seu sobretudo e chapéu cinza, como sempre vestia quando aparecia em público.
            -Mesmo se esse “justiceiro” aparecer, – grunhiu Richard, olhando fixamente para Mihael – ele não vai sair daqui vivo. Temos armas, temos Ray e sua espada – apontou para Raymond – e temos Shawn lá em cima cuidando das coisas aqui em baixo.
            Todos olharam para cima e avistaram Shawn com seu rifle no topo do prédio.
            -Agora voltem ao trabalho – falou Richard, e todos voltaram ao trabalho.
            Ray continuava trabalhando, mas ao mesmo tempo pensava sobre esse “justiceiro”. Seria ele tão forte a ponto de poder combater o crime sozinho? E por que alguém faria isso? Teria ele um motivo especial para fazê-lo? O que levaria uma pessoa a arriscar a própria vida para combater o crime que o Estado tanto patrocina por trás dos panos? Sinceramente, Ray queria se encontrar pessoalmente com esse justiceiro, somente para descobrir o que o motivava tanto.
            Ray olhava para o céu agora. Estava encoberto de nuvens, e não dava sinal de que a chuva cessaria. Não havia nada lá em cima. Ray sentiu que havia alguma coisa faltando. Logo descobriu o que era. Shawn não estava mais lá. Onde teria ele ido?
            -Richard – chamou Ray – olhe. Shawn sumiu.
            Richard olhou para o local onde Shawn deveria estar, e de fato ele não estava lá. Chamou-o pelo rádio, mas não obteve resposta alguma.
            -Estranho... – falou Richard – Homens, fiquem atentos. Talvez o idiota só tenha ido ao banheiro, mas é melhor ficarmos preparados para tudo.
            Ray suspeitava o que estava por vir. Talvez o justiceiro os fizesse uma visita naquela noite. Ou talvez Shawn somente tivesse ido ao banheiro. Queria que fosse a primeira opção. Em todo caso, ficou preparado para o inesperado.
            Ouviu-se um baque no chão. Uma das caixas tinha caído. Todos se viraram para o canto onde ela tinha caído. Richard pôs a caixa que tinha no chão e gritou:
            -Quem foi o idiota que deixou essa maldita caixa...
            Parou no meio da frase. Havia avistado o que os outros já tinham avistado momentos antes. O idiota que deixou a caixa cair jazia inconsciente ao lado da mesma. Todos correram para o local onde Roberto caíra. Checaram seu pulso. Estava vivo.
            -Que merda. – disse Richard – Alguém sabe se ele tem alguma doença ou coisa do tipo?
            -Ele tem pressão baixa. – disse Rafael – Deve ter esquecido de tomar o remédio.
            -Bem, se é só isso, - replicou Richard – ele deve acordar logo. E quando ele acordar, eu vou fazê-lo dormir novamente por ter quebrado uma das caixas. Voltem ao trabalho.
            Deixaram Roberto ali mesmo, no chão. Ray percebeu que Mihael já estava começando a ficar preocupado com tudo aquilo, e Richard também. Olhou para cima, e nada do Shawn voltar. Se tivesse ido ao banheiro, já teria voltado. Estranho.
            Ray e os outros continuaram a carregar as caixas. Uma a uma, elas iam sendo deixadas no depósito. Depois de colocar no chão mais uma caixa, Ray se levantou e observou a situação ao seu redor. Viu a chuva espessa cair no chão. Viu a escuridão que reinava no depósito, e a mínima claridade que adentrava das janelas. Viu Richard, viu Mihael, mas não viu Rafael.
            -Mihael, você viu o Rafael? – Mihael se virou para Ray. Estava claramente estressado.
            -Não, não o vi. Onde será que ele se meteu?
            Olharam para umas caixas no depósito. Nesse instante, um lampejo de luz surge do céu, iluminando parcialmente e rapidamente o depósito todo. Perceberam que havia uma silhueta no chão. Aproximaram-se e viram que era Rafael. Estava inconsciente, assim como Roberto estava. Foi nesse instante que Ray teve certeza que o tal justiceiro estava ali e viera para pegá-los.
            Ray olhou para Mihael, que estava paralisado de medo. Mihael sempre fora assim. Correu para avisar Richard, berrando enquanto corria:
            -Richard! Tem alguma coisa acontecendo! Rafael também está inconsciente! Richard!
            Ray acompanhou Mihael com os olhos até que ele saísse de seu raio de visão. Desembainhou sua katana, fazendo o mínimo de barulho possível. “Que linda situação em que fui me meter”, pensava ele. “Uma pessoa procurada pela polícia está aqui, batendo à minha porta, e eu estou aqui, mais pronto do que nunca para cortá-la ao meio. Que excitante.”
            De repente, Ray notou que Mihael parara de gritar. “É isso. Ele já foi pego”, pensou ele. ”Esse justiceiro é bom. Tenho que tomar cuidado para que eu não seja o próximo. Para ter mais chances, vou juntar-me a Richard.” Ray correu para onde Richard estava, dentro do caminhão. Entrou e procurou por ele, mas o encontrou desacordado lá dentro. “Merda, ele conseguiu derrubar Richard. Tenho que admitir, esse cara é durão” pensou ele. Saiu do caminhão, onde poderia ser facilmente encurralado, e ficou em pé, parado, do lado de fora. A chuva caía intensa, poderia usar dela para saber onde ele estava. Fechou os olhos e se concentrou no barulho da chuva. Ficou só ouvindo, preparado para dar um golpe com sua katana caso ouvisse alguma coisa ao seu redor. E ele ouviu.
            Ray ouviu passos em sua direção. Eram rápidos, eram passos de quem corria para atacar, e vinham de seu lado esquerdo. Esperou os passos chegarem mais perto, para poder acertá-lo com um único e fatal golpe. Abriu os olhos e, numa fração de segundo, se virou para encarar o justiceiro e atacou com sua katana. Tudo que se ouviu foi um barulho de metal tinindo e uma pequena faísca. O justiceiro acabara de se defender do ataque.
            Agora Ray podia ver claramente a figura do justiceiro. Para sua surpresa, ele tinha uma figura feminina. Pela sua silhueta, aparentava ter de 14 a 16 anos de idade. Estava usando botas pretas, que quase iam até seu joelho; sua roupa era azul escura, e revelava suas curvas suaves, bem definidas; usava um cinto preto, com montes de pequenos bolsos; vestia ainda luvas pretas, que iam até seu cotovelo; seus ombros estavam descobertos, revelando sua pele, que era clara; no peito, um símbolo, que Ray identificou como uma letra “V” estilizada, em branco; sua face, parcialmente escondida por seu cabelo curto, repicado, com uma estranha tonalidade de violeta, vestia uma máscara que lhe encobria desde pouco acima do nariz até as sobrancelhas, porém revelando seus olhos esverdeados; Ray notou que seu olho direito, curiosamente, era mais azulado que o outro.
            Ray notou que o justiceiro estava se defendendo de seu golpe com o braço esquerdo. “Deve ter alguma chapa de aço dentro da luva”, pensou ele.
            - Ora, ora, - falou ela, com uma voz suave – você foi o único desses caras que não teve medo de mim. Você deve ser durão.
            -Heh. – debochou Ray, sorrindo. “Finalmente tenho a oportunidade de enfrentar essa justiceira. Ela deu conta de todos os outros, isso vai ser interessante.” Pensou ele.
            -Menina, - disse ele – me diga seu nome para que eu possa escrevê-lo na sua lápide!
            Ela sorriu por um instante, e falou:
            -Você pode me chamar de... Vigilante.

Um comentário:

  1. Primeiro comentario
    essa historia promete!!!!


    comentei pq toda boa historia necessita que pessoas mostrem que apreciaram

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